Nas incursões noturnas, se toparmos com vagabundo, ele vai pra vala. Sei que essa política não foi correta. Agora, não tem mais jeito. A gente mata ou morre. Antes da implantação dessa política, há muitos anos, o marginal se rendia, quando se via inferiorizado. A ordem de atirar para matar, não admitindo rendição de bandido, acabou provocando um efeito paradoxal: aumentou a resistência deles e a violência contra a polícia. Claro, o sujeito sabe que não adianta se render, então luta até a morte. Pelo menos adia a morte e leva alguém junto. Com isso, cresceu muito o número dos autos de resistência seguidos de morte, que são os registros das mortes de civis em confrontos com a polícia. Por outro lado, multiplicaram-se os assassinatos cometidos contra policiais. Por vingança. Essa espécie de vingança ainda mais doentia, dirigida a toda uma corporação. Espelho da vingança que nós mesmos praticávamos, às vezes contra uma favela inteira. O sangue é um veneno. Quanto mais se derrama, mais fertiliza o ódio. E a roda não pára de girar. No final, todos pagamos a conta, a começar pela sociedade. Foi uma insanidade, aquela política. E agora? Os herdeiros da loucura somos nós. O jeito é atirar mais rápido para não morrer. Os políticos e os acadêmicos que discutam o sexo dos anjos.

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